Qual é o balanço do primeiro ano de mandato?
O ano de 2009 foi muito difícil. Em primeiro lugar, devido aos problemas encontrados ao chegarmos ao clube, em outubro de 2008. Mas, sobretudo, pelos insucessos obtidos na Copa do Brasil e na Série D. Um erro fundamental foi partir de um orçamento mais ousado no Campeonato Pernambucano, de aproximadamente R$ 850 mil, e não conseguir sustentar o valor, reduzindo-o para algo em torno de R$ 450 mil. O enxugamento implicou na necessidade de mudança da comissão técnica, comprometendo o trabalho iniciado no Estadual e afetando os resultados em campo. Já como principal avanço da gestão, temos a recuperação física do estádio. O Arruda é um instrumento importante de motivação para o maior patrimônio do clube, que é a torcida, como também é fundamental para a recuperação de receitas.
As perspectivas são de uma temporada mais bem sucedida?
Sem dúvida, o ano vai ser melhor. Quando chegamos, precisamos trazer mais de 27 jogadores. Agora, o treinador conta com uns 19 profissionais da base mantida e deve fechar o elenco com cerca de 30 atletas. Esperamos dar estabilidade ao clube e revelar talentos. O Santa Cruz estruturou uma comissão técnica permanente, com Dado Cavalcanti à frente. Estamos montando a estrutura de futebol. Vamos ter menos dificuldades do que em 2009. E esperamos ter menos azar. Esgotamos o estoque de má sorte. Vamos entrar para brigar pelo título pernambucano. Para o público reencontrar a alegria e o orgulho. É o torcedor coral quem vai levantar o Santa Cruz.
O clube já firmou posição sobre o projeto da Arena da Copa, onde pode receber um centro de treinamento caso “abrace” o plano governamental?
Primeiramente, gostaria de afirmar que a Arena Coral não pode ser bancada com investimento público. Até o momento, não houve manifestação de nenhum grupo privado interessado em viabilizar o plano. Pois bem. O governo do estado está liderando uma proposta, a Cidade da Copa, aprovada pela Fifa, ou seja, o único projeto que existe para Pernambuco. Não se trata mais de especular qual é e qual deve ser o projeto. O parceiro privado tem procurado os clubes, para saber quem irá aderir ao empreendimento. O Santa Cruz já colocou, de forma clara, que não existe qualquer possibilidade de ceder 20 jogos por ano ao local, conforme proposto. Não podemos atender ao percentual, pois temos um grande patrimônio. Queremos negociar para realizarmos, no máximo, um quarto das partidas em São Lourenço da Mata. A oferta do centro de treinamento é interessante, porque é outro objetivo da gestão. Até o final do próximo ano, a ideia do clube é ter um CT de qualidade e nível para revelar jogadores. A venda de atletas é a principal fonte de receitas de um clube. Um instrumento de soerguimento que ainda não dispomos. Uma das grandes deficiências do Santa Cruz.
Como o Santa Cruz pretende chegar aos ambiciosos 30 mil sócios ao final de 2010 ?
Queremos mostrar à torcida que estamos fazendo o dever de casa. Apesar dos revezes em campo, não fugimos da responsabilidade. Conseguimos colocar o time na Copa Pernambuco, pagar os salários do elenco e parte dos compromissos dos servidores, mesmo com algum atraso. Fomos submetidos a uma prova de fogo. Mas estamos saindo de um período difícil com muita esperança e animação. Não paramos em um instante sequer. E a torcida já demonstrou fidelidade. Responde, quando é convocada. Vamos fazer uma grande campanha de sócio no início de janeiro. Em seis meses, já esperamos a adesão de uns 15 mil tricolores. Poderemos arrecadar cerca de R$ 300 mil por mês. Praticamente toda a folha de futebol seria custeada pelos sócios.
Onde o Tricolor deve captar receitas?
Estamos anunciando novos patrocinadores, são marcas importantes no mercado. Os valores ainda são modestos, mas é por causa da situação onde o clube se encontra. Mas as empresas desejam fazer contratos de médio prazo, apostando na recuperação do Santa Cruz dentro do cenário nacional. Só os patrocínios com a venda de espaços publicitários no campo, direito de venda de produto no estádio e as marcas estampadas na camisa, deveremos ter receita de R$ 2 milhões ao longo de 2010, o que mostra a força do clube. Outra fonte de renda é através do Todos com a Nota e com a bilheteria. Estamos corrigindo uma deficiência e iremos fazer a bilhetagem eletrônica, para evitar evasão, cambistas, o que foi uma falha no primeiro ano de gestão. Na primeira partida do Estadual, o Santa Cruz já deve estar com catracas eletrônicas em todos os setores.
Qual é o orçamento para 2010?
A meta de orçamento é pé no chão. Em torno de R$ 6 milhões para o ano. Serão R$ 300 mil mensais para o futebol e R$ 200 mil para investir na base, pagar servidores, quitar acordos trabalhistas e utilizar em outros setores administrativos.
Existe chance de a Seleção Brasileira jogar no Arruda antes da Copa do Mundo?
Não depende apenas da nossa vontade. Quando houve o último jogo da Seleção aqui no Recife, Ricardo Teixeira deixou escapar que a Seleção sempre foi muito bem recebida em Pernambuco, com muito carinho, e sempre teve sorte. Daí fizemos a provocação da possibilidade de a Seleção se despedir do Brasil rumo à África do Sul, fazendo amistoso no Arruda. Ele gostou da ideia e pediu para formalizarmos o convite em 2010, com o apoio do governador Eduardo Campos. É o que iremos fazer por volta do fim de janeiro, para ver se, dentro da programação da CBF, possa haver a partida.
Qual foi o objetivo do convite para o retorno de ex-opositores como Zé Neves e Romerito Jatobá?
No momento de revés, é natural se instalarem as críticas e o debate sobre os caminhos que o clube deve perseguir. Uma das reclamações era a falta de participação de outras correntes. Então, os conselhos consultivos tiveram o objetivo de permear maior presença e garantir clima de união de forças, criado quando assumi a presidência.
Você teve medo de chamar essas pessoas, que saíram do clube com uma rejeição enorme?
Levo na vida um ensinamento que ajudou muito na minha caminhada como homem público e político. Quem fica olhando pelo retrovisor às vezes não foca as oportunidades que tem pela frente. Independente do julgamento sobre o que cada um dos ex-presidentes fez, o fato é que eles procuraram dar o melhor. Um pode ter obtido mais sucesso do que o outro. Mas, agora, é o momento de união. Não queremos interditar o debate, nem a crítica, pois é positiva a existência. É importante que todos que amam o Santa Cruz possam, de alguma forma, se unir, ter algum ponto em comum. Vivemos uma situação de constrangimento. Não gostamos nem de falar. Dizer que estamos disputando um lugar no Pernambucano para poder ir à Série D é uma coisa vergonhosa. Precisamos sair disso, virar a página e não fazer caça às bruxas para saber por que o clube caiu. Caiu, caiu. Não subimos no primeiro ano, a responsabilidade é nossa, e vamos trabalhar para colocar o Santa Cruz no caminho de volta à elite, o objetivo principal.
Antes de assumir o clube, você já teve alguma ligação com esporte, seja como praticante ou gestor?
No início da caminhada política, eu fui residir em Petrolina, em 1979. Estava trabalhando por lá, e me chamaram para serpresidente do Caiano Social Clube. Fui presidente por dois anos: 1980 e 1981. Fizemos trabalho com o apoio de muitos amigos e formamos uma grande equipe no seio de Petrolina-Juazeiro. Fomos campeões do BAP (Bahia-Pernambuco), torneio existente nas duas cidades. Pequena experiência, mas muito rica como dirigente esportivo. Como praticante de futebol, eu jogava na época do ginásio, mas era fraco de pelada. Tinha uma quadra na casa do meu pai. Em Petrolina, construí um campinho na minha residência, mas só para bater uma bolinha com os meninos.
Como você reage aos comentários de que você não entende de futebol?
É a visão do pessoal. A gente sabe que todo torcedor é um técnico, tem opinião formada. Certamente, existem os que entendem mais de futebol do que eu. Mas eu gosto, acompanho, vivo futebol e estou querendo, neste tempo, servir ao Santa Cruz, dar o melhor do que eu sei.
Qual é a avaliação referente aos dois ex-diretores de futebol?
Antônio Capella e Nevton Borba são grandes profissionais. O trabalho deles ficou comprometido pela dificuldade financeira. Faltou previsibilidade para a manutenção do investimento inicial. O erro é do presidente. Mudamos comissão técnica e os resultados não apareceram. É o que procuramos não repetir. Aposto na chegada de Raimundo Queiroz, junto com a experiência de Lori Sandri e a juventude de Dado Cavalcanti. Uma mescla importante.
Como surgiu a oferta para gerir o clube?
Nunca passou pela minha cabeça ser presidente do Santa Cruz. Hoje, no entanto, sinto-me honrado e orgulhoso de dar contribuição para este clube fantástico. Fui chamado por uma série de amigos. Provocações para haver uma espécie de união. Quem primeiro levantou a ideia foi Evaldo Costa (secretário estadual de comunicação). Outros foram cogitando e, para a minha alegria, todas as correntes resolveram abdicar da candidatura e me dar apoio.
Do que você abriu mão para se tornar presidente do Santa Cruz?
Do convívio da família. Na política, já é complicado. Imagine quando se junta política e futebol? Tem que estar presente nos jogos, com a equipe, uma série de reuniões. É uma atividade movida a paixão. A racionalidade às vezes é esquecida. Exige muito.
Como você enxerga o seu futuro à frente da presidência coral, sendo um provável candidato para as eleições do Executivo?
Estou analisando com os meus assessores jurídicos. A primeira avaliação é de que não haveria nenhum impedimento de disputar a eleição e continuar no cargo. Quando o momento se aproximar, lá para o final de março, pois o prazo de descompatibilização é no dia 3 de abril, vamos aprofundar a questão. Se houver impedimento, eu me licencio, nosso vice-presidente responde e eu retorno após as eleições para cumprir o mandato até o final do ano.
Há possibilidade de reeleição?
É cedo para comentar. Na realidade, a minha disposição e até o apoio da família são para eu exercer apenas um mandato. Ser presidente de futebol, sobretudo de um time de massa como o Santa Cruz, exige muito. Você precisa se dedicar. Muita energia tem que ser colocada, principalmentediante o momento difícil vivido pelo Santa. É bom sempre termos outros presidentes ao seu tempo, dando a devida colaboração. Não tenho nenhum pensamento voltado à reeleição. Queremos cumprir o mandato. A nossa gestão vai alcançar os resultados e os objetivos e colocar nome para apreciação visando a sequência do trabalho. Não tenho indicação ainda. É cedo. Depois do Campeonato Pernambucano, quem sabe.